
Por: Rede Brasil Atual
No Dia Mundial da Alimentação, ex-presidente destacou que, enquanto Brasil colhe safra recorde de grãos, 10 milhões de pessoas já estavam passando fome em 2018, consequência do golpe que mergulhou o pais “num poço sem fundoâ€
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou que o Brasil não tenha o que festejar nesta sexta-feira (16), Dia Mundial da Alimentação. Lula ressaltou que com a alta dos preços dos alimentos básicos durante a pandemia, apesar da safra recorde de grãos neste ano, o “terrÃvel fantasma da fome ronda os lares de milhões e milhões e milhões de brasileirosâ€.
“O arroz subiu quase 20% desde o inÃcio do ano. O feijão, quase 30%. E o leite, mais de 20%. Alguns produtos de primeira necessidade desapareceram dos supermercados. Tudo indica que os preços continuarão subindo nos próximos mesesâ€, afirmou em vÃdeo divulgado nas redes sociais.
Ele citou dados do IBGE que apontam que 10 milhões de pessoas, “inclusive criançasâ€, passavam fome no Brasil ainda em 2018. “É inaceitável que, no Brasil, tantos homens e mulheres e crianças não tenham o que comer. Afinal, somos um dos maiores produtores de alimentos do mundoâ€, disse Lula.
Em 2020, foram colhidas 257 milhões de toneladas, o que garantiria uma média de 3 quilos de alimentos para cada brasileiro. Mas as desigualdades sociais impedem a distribuição desses recursos. “O agro pode ser pop, como dizem os carÃssimos anúncios na televisão. Mas não resolve o problema da fomeâ€, destacou.
Mapa da ONU
Em contraposição, ele destacou que, em 2014, o Brasil conquistava o respeito e a admiração mundial ao ser declarado fora do Mapa da Fome da ONU. Mas, após o golpe do impeachment contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, o Brasil foi mergulhado num “poço sem fundoâ€, segundo Lula.
Ainda ao falar sobre a fome, Lula destacou outros estudos que indicam que 74 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar média ou leve.
“Na mesa do pobre, porém, a fome não tem nada de média ou leve. Na vida real, é quando a mãe e o pai não comem para a alimentar as crianças. Ou quando a famÃlia sacrifica a qualidade do que come para que todos possam comer. Como conviver com tamanha crueldade?â€
Combate à fome
Lula destacou que durante séculos a fome foi naturalizada no Brasil. “Parecia algo inevitável, como o calor e o frio, a seca e a chuvaâ€. Ele citou o médico pernambucano Josué de Castro, que escreveu o clássico Geografia da Fome no Brasil, que explicou que este era um problema polÃtico. “Foi preciso que chegasse à Presidência da República alguém que conheceu a fome na própria pele para dizer: Basta! E mostrar que era – e continua sendo – possÃvel dizer não a essa indignidade.â€
No seu governo, ele destacou polÃticas públicas – como o Bolsa FamÃlia, a valorização do salário mÃnimo e a criação de milhões de empregos com carteira assinada – que tiraram 40 milhões de brasileiros da pobreza extrema. “Em apenas quatro anos destruÃram tudo o que fizemosâ€.
Arquitetura da destruição
Os governos que vieram depois do golpe de 2016 promoveram um desmonte sistemático dos estoques reguladores de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Devido à polÃtica de desmonte do Estado praticada pelos últimos governos, o Brasil foi apanhado de calças curtas e entrou na pandemia com os estoques públicos de alimentos praticamente zeradosâ€.
Além disso, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que chegou a investir R$ 1,2 bilhão na compra de alimentos da agricultura familiar também foi praticamente destruÃdo. No Orçamento do ano que vem, os recursos do PAA sofreram redução de 90%. Anteriormente, ainda em 2018, um dos primeiros atos de Bolsonaro como presidente foi fechar o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). “O resultado não poderia ser outro: a fome voltou a crescer no paÃsâ€.
Outro fator que contribuiu “em grande medida†para a volta da fome do paÃs foi o “gravÃssimo quadro do desempregoâ€. “O Brasil tem hoje 13 milhões de desempregados, a maioria jovens pobres e de classe média. Outros 17 milhões pararam de procurar emprego por causa da pandemia, ou porque perderam a esperança de conseguir trabalho, qualquer trabalho.â€
Como consequência, a massa salarial teve queda de 15% no último ano. Enquanto 40 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em R$ 170 bilhões, apenas durante a pandemia. “Os pobres estão cada vez mais pobres, e os ricos cada vez mais ricos. O resultado dessa arquitetura da destruição é que a economia brasileira mergulhou na maior recessão da sua históriaâ€.
O “tiro de misericórdia†contra os mais pobres, contudo, veio com o corte pela metade do auxÃlio emergencial. “É imperioso manter o auxÃlio emergencial de 600 reais enquanto durar a pandemia. Conclamo todos a apoiarem a campanha lançada pelas centrais sindicais, exigindo do Congresso a imediata votação dessa medida. Nenhum real a menos!â€
Volta por cima
Entretanto, o ex-presidente afirmou que o povo, que é “muito maior do que as elitesâ€, saberá dar a volta por cima. “O povo que já derrubou uma ditadura de generais não treme diante de capitães autoritáriosâ€. E que a fome só terá fim quando “distribuirmos a riqueza para que o povo possa se alimentar todos os diasâ€, disse Lula.