Os desafios da esquerda

As eleições municipais de 2024 apresentaram resultados que, à primeira vista, podem ser interpretados como uma derrota total do campo popular democrático, mas exigem uma análise mais profunda e cuidadosa, sob pena de contribuir com a narrativa da direita e extrema-direita. A eleição é apenas um momento da disputa política de projetos que acontecem na sociedade. É importante avaliar que as eleições municipais no Brasil ocorreram em um momento marcado, por um lado, pelo avanço da extrema-direita no mundo e no Brasil e, por outro, pelo recuo da esquerda.

Em termos numéricos, os dados mostram um avanço significativo do centro direita e da extrema-direita nas prefeituras e câmaras municipais. Mais de 91 milhões de eleitores votaram em candidatos do campo conservador, enquanto 22 milhões apoiaram candidaturas progressistas. No total, 4.726 prefeituras foram conquistadas pela direita e extrema-direita, enquanto 740 foram para o campo da esquerda e progressista. Os números de vereadores/as eleitos refletem a vitória da direita sobre a esquerda. Foram cerca de 48 mil vereadores/as da direita e extrema-direita contra 10 mil do campo progressista e popular. O Psol lançou candidatos/as a prefeituras em 200 municípios, mas infelizmente não elegeu nenhum. O PT conseguiu aumentar sua presença nas prefeituras, passando de 183 em 2020 para 252 neste ano.

Embora seja um aumento modesto, especialmente considerando a conquista do governo federal em 2022 e as expectativas de um crescimento maior, não se pode falar em desastre eleitoral, tampouco concordar com analistas políticos que afirmam que o partido acabou. Essa afirmação é repetida desde 2016. Outro ponto a ser observado é o alto índice de reeleição, que alcançou quase 82% nas eleições municipais, o maior em 20 anos. Esse recorde de reeleições está ligado às emendas parlamentares, especialmente as do tipo “pix” — recursos sem identificação da autoria da emenda.

Não é hora de ficar debatendo a ideia de que o PT precisa aderir ao centro. O momento exige uma avaliação aprofundada do processo eleitoral para tirar lições e fortalecer a unidade entre forças progressistas, sem recuar das pautas de esquerda. É essencial construir uma aliança sólida envolvendo o governo Lula, os partidos de esquerda e os movimentos sociais e populares, com o objetivo de formar uma estratégia conjunta. Além disso, avançar em uma comunicação eficaz é indispensável para enfrentar a extrema-direita e, desde já, preparar a disputa eleitoral visando garantir a reeleição do presidente Lula.

Sobre o tema, veja abaixo análise feita por Raimundo Bonfim, coordenador nacional da CMP:

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