
Por: Rede Brasil Atual
Com barracos e pratos vazios, ONG Rio de Paz vai fazer um protesto nesta quarta-feira (9), em BrasÃlia, denunciando o avanço da fome nas comunidades
São Paulo – A primeira semana de dezembro registrou recrudescimento da pandemia no Brasil. Foram 4.067 mortes registradas pela doença, maior número desde outubro. Esse perÃodo também marca o pagamento da última parcela do auxÃlio emergencial. Desde outubro, o auxÃlio de R$ 600 já havia sido reduzido pela metade. Agora, sem emprego e sem renda, as famÃlias que moram nas periferias aguardam com apreensão a chegada do novo ano.
Enquanto isso, o governo do presidente Jair Bolsonaro parece habitar uma realidade paralela. Em vez de buscar alternativas que garantam a sobrevivência das famÃlias mais pobres, ele e a primeira-dama Michelle inauguraram nesta segunda-feira (7) uma exposição com as roupas usadas na posse.
Após discussões ao longo do ano sobre um programa que poderia substituir o Bolsa FamÃlia, com valor maior e alcançando um número mais amplo de famÃlias, o governo acabou desistindo da criação da chamada Renda Cidadã – ou Renda Brasil. “Pergunta para o vÃrusâ€, foi a resposta do presidente, quando questionado sobre a possibilidade de prorrogação do auxÃlio emergencial.
Para demonstrar a situação desesperadora dos moradores das favelas e pressionar o governo, a ONG Rio de Paz prepara uma manifestação nesta quarta-feira (9) em BrasÃlia. Na Esplanada dos Ministérios, serão erguidos barracos, além de uma mesa de 5 metros cheia de pratos vazios, ocupada por famÃlias que dependem do auxÃlio emergencial.
Crise e fome
Por outro lado, o quadro social crÃtico é agravado pelo falta de opções de trabalho. Ainda antes da redução do auxÃlio, o desemprego atingiu recorde de 14,6% – cerca de 14 milhões de pessoas – no trimestre encerrado em setembro. Com a flexibilização das medidas de isolamento, mais pessoas saÃram à procura de uma ocupação.
Além disso, as famÃlias sofrem ainda com o aumento do preço dos alimentos. O valor da cesta básica registrou alta de 35% nos últimos 12 meses. Ou seja, em pelo menos cinco capitais do paÃs o auxÃlio de R$ 300 reais não compra sequer metade da cesta com os produtos essenciais.
Nos últimos anos, ainda antes da eclosão da pandemia, o IBGE já havia registrado aumento da ameaça da fome no Brasil. No perÃodo 2017-2018 – ou seja, após o impeachment de Dilma Rousseff –, 36,7% dos domicÃlios do paÃs enfrentavam algum grau de insegurança alimentar. Já o grau considerado grave de insegurança alimentar atingia 3,1 milhões de pessoas.
Depoimentos
Nas redes sociais, a campanha #NãoAoFimDoAuxilioEmergencial colheu depoimentos de famÃlias que temem pela futuro com o término dessa ajuda. Patricia, moradora da comunidade do Quiabo, na Vila Kennedy, zona oeste do Rio de Janeiro, conta que ela e o filho estão desempregados. O dinheiro do auxÃlio serve para comprar alimentos e fraldas para a neta que tem menos de um ano. “Se eu perder o auxÃlio emergencial, o que será de mim? Só a misericórdiaâ€, lamenta.
“Se acabar, eu não sei o que vou fazerâ€, afirma Raquel Xavier Soares, de 36 anos, desempregada, mãe de 7 filhos. Moradora da mesma comunidade, ela conta que o marido vive de “biscateâ€. “Quando está chovendo, não tem serviço.†Ela também usa o auxÃlio para “comprar arroz e feijão para as criançasâ€.
“Se o auxÃlio acabar, muitas pessoas vão passar necessidadeâ€, relata “William Elber Campos Rodrigues, de 25 anos, que também vive numa das comunidades do Rio. “A gente quer a nossa carteira assinada, para conseguir nos manter e conquistar nossos objetivosâ€, conta ele. Mas a mãe do seu filho também está desempregada, vivendo apenas do auxÃlio emergencial.
Segundo o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, acabar com auxÃlio emergencial “é crimeâ€. “Estamos dentro da favela, visitando barracos e ouvindo moradores. Vai bater desespero no desempregado. Desempregado não por ser vagabundo, como se costuma rotular o pobre que não trabalha. Mas por não encontrar emprego, por mais que se esforce. Essa dÃvida social é do Estado brasileiro, e só pode ser paga por eleâ€, afirmou.
Alternativas
Segundo dados do Ministério da Cidadania, mais de 66 milhões de pessoas recebem o auxÃlio emergencial. Se considerados todos os integrantes das famÃlias, são cerca de 126 milhões de pessoas que dependem desses recursos. Esse número corresponde a 60% da população do Brasil. Contudo, à s vésperas do Natal e do Ano Movo, o cenário é de “angústia†para essas famÃlias, com o fim do auxÃlio.
“Diante da falta de renda, aumento do desemprego e continuidade da pandemia, o cenário nas favelas e periferias é de desesperoâ€, afirmou o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, que apoia o protesto.
Ele destacou que são neste locais que a fome atinge mais fortemente as pessoas, principalmente as mulheres, a população negra e a juventude. Também citou o empobrecimento da população diante da alta do preço dos alimentos. “Continuamos com as ações de solidariedade aos grupos mais vulneráveis, mas infelizmente não tem sido suficiente para matar a fome de milhões de pessoas.â€
Para enfrentar a fome e a miséria, a CMP e outras 300 entidades que compõe a Rede Brasileira de Renda Básica (RBRB) lançaram a campanha “A Renda Básica que Queremosâ€. O projeto, que está aberto para consulta pública, pretende instituir um auxÃlio permanente de R$ 600.