Fonte: Brasil 247
A Defensoria Pública da União (DPU) passou a recomendar o ajuizamento de ações, em todos os estados, para a suspensão do pagamento das prestações da Faixa 1 do programa Minha Casa Minha Vida, que contempla as famÃlias mais carentes, com renda até R$ 1,8 mil. Alertas feitos pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) e a União Nacional por Moradia Popular (UNMP) revelam que o governo protela e empurra, de um órgão para o outro, a solução para a demanda dos beneficiários de menor renda do MCMV e os mais afetados pela pandemia: pausar o financiamento da casa própria durante a crise provocada pela covid-19, a exemplo de medida concedida em maio à s demais faixas do programa e a outros mutuários da Caixa.
“Esta é a população de baixa renda que mais sofre com a pandemia”, ressalta o presidente da Fenae, Sérgio Takemoto. “Muitos tiveram que interromper o trabalho e mal têm condições de se manter. São brasileiros que precisam muito de amparo do governoâ€, acrescenta. Na última sexta-feira (3), o jornal O Estado de São Paulo destacou que a Faixa 1 do Minha Casa Minha Vida é a única que não foi beneficiada com a possibilidade de pausar o financiamento imobiliário.
Conforme observou o presidente da Fenae ao jornal — na reportagem “Caixa ignora crise e mantém prestação de mutuário de baixa renda†—, depois de um mês de inadimplência, os mutuários podem perder o imóvel. “É um risco muito grande que estas pessoas estão correndo”, observou Takemoto, ao Estadão.
De acordo com o veÃculo, o defensor nacional de Direitos Humanos da DPU, Atanasio Darcy Lucero Júnior, orientou aos defensores regionais que analisem a viabilidade de ingressarem com o pedido de suspensão das prestações, nos estados. As divisões da Defensoria em São Paulo e no Ceará já haviam obtido decisões liminares protegendo famÃlias das cobranças.
“Há independência para que eles [defensores públicos] analisem se entrarão ou não [com ação de suspensão das prestações]; mas considero a demanda extremamente relevanteâ€, disse Lucero Junior, ao jornal O Estado de São Paulo.
“Essa falta de ação do Executivo federal para socorrer os que mais precisam mostra a quem este governo atendeâ€, afirma a representante da União Nacional por Moradia Popular (UNMP), Evaniza Rodrigues. “A ação da DPU vem enfrentar este problema para corrigir uma distorção absurdaâ€, emenda.Â
A defensora Viviane Dallasta Del Grossi, que ingressou com ação em São Paulo, disse à reportagem do Estadão que a decisão favorável garantiu à s famÃlias do estado uma proteção contra cobranças durante um perÃodo de três meses. Em outras regiões, as prestações continuam sendo cobradas.
“Fiquei me perguntando por que a Caixa, para outras faixas, deferiu a suspensão; e justamente a faixa mais vulnerável ficou desassistida. Eles colocam a questão de ausência de previsão legal, mas bastaria a União ter tido boa vontade. Ao fim e ao cabo, eu só consigo chegar a essa conclusãoâ€, completou Del Grossi, ao jornal.
SEM RESPOSTA — Há meses, a UNMP reivindica a suspensão do pagamento das parcelas do financiamento do programa Minha Casa Minha Vida para a Faixa 1. Segundo Evaniza Rodrigues, a entidade busca, desde fevereiro, solução junto à Caixa e ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).Â
Para a UNMP, o banco disse que a decisão de pausar o financiamento depende do MDR. A União Nacional por Moradia Popular procurou o ministério, mas foi informada sobre a necessidade de uma portaria entre MDR e Ministério da Economia. “O movimento enviou um ofÃcio ao ministério; porém, não tivemos respostaâ€, conta Rodrigues.
A Fenae também procurou informações junto à Caixa e ao Ministério do Desenvolvimento Regional para confirmar a exclusão da Faixa 1 e saber por que não é permitido a estes beneficiários a postergação do pagamento das prestações. A assessoria do banco respondeu que o financiamento da Faixa 1 não pode ser pausado e que a questão deveria ser tratada com o MDR, gestor do programa. A Fenae questionou o ministério sobre o motivo de não incluir estes beneficiários na pausa dos pagamentos, mas também não obteve retorno.
“A vida ficou mais cara na pandemia para quem mais necessita de rendaâ€, ressalta Evaniza Rodrigues. “A parte do beneficiário que deveria ser paga no financiamento (varia de R$ 80 a R$ 270) poderia ser utilizada para estas despesas familiares”, pontua a representante da UNMP.
Ao jornal O Estado de São Paulo, a Caixa disse que “atua na qualidade de gestor operacional” [do Minha Casa Minha Vida] e que “cumpre determinações do gestor do programa, o Ministério do Desenvolvimento Regional”. O MDR informou à reportagem que “oficiou o Ministério da Economia, solicitando que fossem tomadas medidas orçamentárias que possibilitassem a suspensão das cobranças da Faixa 1”.
PROJETO EM PAUTA — No Congresso, tramitam projetos de lei para suspender o pagamento de financiamentos habitacionais enquanto durar o estado de calamidade pública. Um deles é o PL 795/2020, dos deputados Israel Batista (PV-DF) e Helder Salomão (PT-ES). A proposição proÃbe a cobrança de juros e moras sobre as parcelas suspensas. O projeto está na pauta de votações da Câmara desta terça-feira (7).
Na avaliação de Evaniza Rodrigues, da UNMP, o PL 795 atende à s expectativas das famÃlias. “Pela conta do movimento, a aprovação do projeto vai beneficiar 1,4 milhão de famÃlias, que são as pessoas que já receberam moradia do Minha Casa Minha Vida Faixa 1 desde 2010, quando começaram as primeiras entregasâ€, analisa. Se aprovado, o PL seguirá à sanção presidencial.
No Senado, foi apresentado o PL 2.575/2020, de autoria do senador Rogério Carvalho (PT-SE). Outro projeto de lei — o PL 1.935/2020, da senadora Rose de Freitas (Podemos-ES) — suspense as prestações de consumidores afetados pela pandemia. A matéria aguarda designação de relator para começar a tramitar.